¡c¡ao!¡cret¡n¡!: primeiro de abril de dois mil e cinco, relatório final – parte três






Segunda-feira, Abril 04, 2005

primeiro de abril de dois mil e cinco, relatório final – parte três

deixei as trouxas em casa e voltei pra estrada. talvez porque já tivesse dirigido mais de sessenta quilômetros algumas horas antes – alguns preferem ir por outros caminhos, uns mais obscuros e outros me elevando à condição de pateta-mor – não soube dar ouvidos às orientações de meu anfitrião. poderia simplificar se batesse nessa tecla, quando a verdade é que nem eu próprio sei o que se passou. um trajeto feito milhares de vezes desde minha infância, de repente, se mostrou uma rodovia escura, vazia e sem pontos de referência. não vi supermercado, não vi viaduto, não vi entrada, nem placa. estava na liga fazia muito, pelo visto. o celular tocou advertindo-me que não poderiam mais me esperar. teria de me virar sozinho dali em diante. não que seja expert em me localizar no tempo-espaço, mais ainda sob pressão e tortura psicológicas. no entanto, a missão tinha de ser cumprida. o repelente que ficasse pra mais tarde. no momento, precisava tão-somente de um frasco de óleo de peroba. devo ter me enfiado em, pelo menos, três becos dos mais desertos. quando encontrava uma viva-alma era uma festa só, muito embora meus informantes não tivessem cara do que poderíamos chamar de bons amigos. estava perdido, angustiado, prestes a ser empalado num fim de mundo e o pior: trinta minutos atrasado. quase resignado, decidi que aquele seria o último retorno. a paciência já tinha ido pro beleléu e o petróleo não parava de subir. das recomendações de duas noites passadas, só levava comigo a imagem de uma estradinha de terra batida aparentemente sem destino. “vai até onde der, não importa o quanto tu aches que não dê mais”. e aquela me parecia a mais apropriada. levantando o máximo de poeira possível, esgueirando-me da buraqueira geral, meu instinto de menino criado em apartamento traiu-me mais uma vez. o cara não te disse pra ir até onde desse? disse. e tu não ta vendo que ainda dá? dá, é? só mais um pouquinho, não te nóia. mais uns duzentos quilômetros e tu vira pra esquerda. agora, sim. ninguém mais existia por aquelas bandas, senão grilos, pererecas e vegetal à beça. forçando a barra mais um pouquinho, quarenta minutos após o ritual ter se iniciado, deparei-me com o tão almejado portão azul anil. em amarelo, a sigla ofuscou a vista. ungidos dançaremos valsa. era o que sentia. desci do carro, tomando cuidado pra não pisar nas poças de lama e, enxerido, porém persistente, destravei as portas da felicidade. lá longe, passando os importados estacionados, viam-se as luzes acesas. ao pé da varanda, a sombra de um gordinho mirava o invasor.

o desfecho se aproxima...





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