¡c¡ao!¡cret¡n¡!: pré-projeto mestrado - versão final






Terça-feira, Outubro 19, 2004

pré-projeto mestrado - versão final

Ei-la aqui. A versão final do meu pré-projeto para a seleção do mestrado em filosofia. Linha de pesquisa: epistemologia. O trabalho feito.


EPISTEMOLOGIA QUÂNTICA:
UM NOVO MÉTODO TRANSDISCIPLINAR COMO SOLUÇÃO PARA OS
PARADOXOS HIPERMODERNOS

1. Apresentação

1.1. Introdução à Questão Contemporânea
Há, em nossos tempos, tomando-se o século passado como referencial, mais que em qualquer outro momento da história, considerando-se a velocidade com que as informações circulam, cada vez maior, possibilitando de idêntico modo a sucessão inconteste de princípios e conceitos de investigações que a antecederam; há, portanto, nesse contexto, a prevalência, por parte de pensadores adeptos das mais variadas escolas, de se refutar tudo aquilo que um dado "oponente" intelectual, seja seu contemporâneo ou seu predecessor, tenha porventura demonstrado, onde o ataque se dá menos devido às causas pelas quais a teoria fora desenvolvida do que propriamente aos efeitos que a mesma propusera.
Um pormenor que venha a divergir com a idéia que o próprio faça da coisa da qual se esteja tratando é o suficiente para que a tese, em sua totalidade, seja descartada como insipiente ou sem valor prático e assim aceita pelo meio científico. Sob certo prisma, é como se estivessem desesperados em busca de uma redenção que viesse limpar as manchas das heresias professadas por seus pares, capaz de lhes eternizar como clássicos em uma era marcada pelo efêmero, qual uma fuga inconsciente do descartável em cuja construção contribuíram, mas fossem impedidos de a realizarem por conta de estarem os próprios caminhando em círculos, em volta do eixo retórico que criaram.
Neste sentido, o filósofo brasileiro Olavo de Carvalho, ao comentar sobre o assunto, atenta-nos para o fato de estar sendo criado - a bem da verdade, já desenvolvido - o preconceito, nos meios letrados,

"de que, cada geração, pelo simples fato de ter nascido mais tarde, é o eu transcendental das gerações mais velhas e enxerga o fundo das águas onde boiavam, inconscientes, os antepassados.
Assim, dia a dia torna-se cada vez mais difícil mostrar às novas gerações qualquer coisa que os antigos enxergassem perfeitamente bem e cuja visão tenha se perdido entropicamente na massa informática do 'novo'. O esquecimento adquire o prestígio de um saber superior. (...) Este preconceito é hoje o mais temível obstáculo em qualquer discussão científica".[1]
Exemplos disso não faltam, tendo o próprio Carvalho nomeado desde Marx e seu “interesse de classe”, passando por Nietzsche - para quem o tal interesse de classe seria nada mais do que o véu ilusório “a encobrir a verdadeira motivação da história toda: a vontade de poder” - até chegar em Freud e sua afirmação de que as personagens “não fazem senão obedecer ao impulso da libido inconsciente recalcada”. Então, surgiu Jung com sua teoria de que repetimos “as tramas arquetípicas de um script milenar registrado no inconsciente coletivo”, prontamente posta abaixo por Korzybsky e Whorf, fundadores da “Semântica Geral”, que acreditavam ser uma enganação os “pressupostos metafísicos” aristotélicos, sobrepostos uns aos outros na estrutura da linguagem. Para arrematar a questão, veio Foucault, cuja estrutura geral do saber “condiciona todos os conhecimentos particulares de uma dada época (...) e que, de repente, sem razão plausível, muda para outra episteme deixando todos perdidos no ar”.[2]
Nessa querela, esfarelam-se por entres os dedos os ensinamentos verdadeiramente dialéticos de outrora, ávidos que os pensadores modernos estão pelas tendências de se partir rumo a novas descobertas baseadas em trezentos anos de conhecimento subjetivo. De fato, não encontramos dificuldades em apontar os percalços que a epistemologia teve de enfrentar ao longo dos séculos.

1.2. Breve Histórico
Uma vez impedidas de serem levadas às últimas conseqüências pelo teocentrismo dominante na época, as tentativas de se sistematizar as relações do conhecimento científico e de esclarecer seus vínculos foram por água abaixo. Dadas as limitações com que se deparavam os cientistas em busca do saber, e em face às novas descobertas científicas de Copérnico e Galileu, fez-se mais que necessária a ruptura com as interpretações dos fatos impostas pela Igreja, com o propósito de sanar os caminhos que levavam ao sistema em vigor, construindo as bases para a moderna filosofia.
Descartes veio com este intento, o de reunir os pensamentos da nova ciência natural, materialista e mecanicista, em um único e coerente sistema filosófico, decompondo um problema em tantas partes isoladas quanto fossem possíveis e necessárias, na crença de que, se partisse dos aspectos mais simples para se chegar aos mais complicados, construiria um novo conhecimento. Concebeu, então, a filosofia do dualismo, dividindo o mundo em uma esfera objetiva de matéria, domínio da ciência, e outra subjetiva da mente, domínio da religião, onde tudo mais que não pudesse ser explicado racionalmente era descartado.
A contribuição da máquina de Descartes, projetada em "Discurso do Método", para o mundo como o conhecemos é incomensurável, a partir da qual Newton erigiu suas leis que foram a base para física moderna, inclusive o que chamou de determinismo causal, ou seja, a idéia de que todo movimento pode ser previsto em sua exatidão, dadas as condições iniciais em que se encontravam os objetos.
Na filosofia, foi uma das extremidades da ponte pela qual passaram Spinoza, Leibniz, Locke, Berkeley, Hume, cada qual com seu próprio sistema determinista, racional ou empírico, que, respectivamente, diziam estar o conhecimento humano na própria consciência do homem ou afirmavam que aquele derivava das impressões do sentido; chegando, finalmente, ao outro extremo: Immanuel Kant, que, em sua "Crítica da Razão Pura", erigiu os alicerces de uma edificação que seria finalizada, mais tarde, por Shopenhauer: a irracionalidade da coisa em si, declarando a superioridade da lógica pura e linear sobre a dialética.
Em outras palavras, "se a lógica é apenas o esquema da razão humana, que se ergue na ponta do processo de manifestação cósmica da coisa-em-si sem poder retroagir para abarcar cognitivamente a causa que a criou, a coisa-em-si está eternamente fora do alcance de todo conhecimento racional, é portanto irracional, a-racional ou pré-racional. Tal como os sentidos, a razão é uma das formas do mundo da Representação, a casca de aparências que encobre a misteriosa Vontade universal".[3]

1.3. Eclosão da Modernidade: Novos Paradigmas Quânticos e a Era do Vazio
Como já foi demonstrado no início da presente apresentação, o que se sucedeu desde então foi um emaranhado de teses e refutações, que, embora guiassem a humanidade praticamente por leitos diversos, desembocavam todas no incognoscível. Sem maiores delongas, podemos afirmar que, após tão pouco tempo desde sua elaboração, enfadava-se o dualismo cartesiano, uma máquina cujas engrenagens começavam a dar os primeiros sinais de ferrugem, levando o nada a lugar nenhum.
Calcado que era no velho paradigma newtoniano, o golpe fatal saiu das mãos do físico alemão Max Planck, pai dos esboços iniciais da mecânica quântica. A ele, seguiram-se Bohr, Heisenberg e Schrödinger, formulando a filosofia quântica a derrubar, um a um, os fundamentos essenciais do monismo materialista de Newton, os quais, se por um lado ainda servem perfeitamente para solucionar problemas com macrocorpos, falham, porém, no mesmo experimento em relação aos corpos quânticos, os microbjetos. No entanto, "surgirão paradoxos quânticos sem solução se dividirmos o mundo em domínios da física clássica e quântica".[4]
Assim, teorias quais as da Objetividade Forte (objetos separados existem independentemente do observador), Determinismo Causal (o mundo é causal e inteiramente determinado pelas leis do movimento e condições iniciais de um objeto do universo espaço-tempo), Localidade (todas as interações ou comunicações entre objetos ocorrem através de campos ou sinais que se propagam através do espaço-tempo, obedecendo ao limite da velocidade da luz), Materialismo e Epifenomenalismo (fenômenos mentais subjetivos são apenas epifenômenos da matéria), não mais têm razão de ser. Por conseguinte, os preceitos do realismo materialista cartesiano também não. Uma revolução no modo de se pensar o mundo, a epistemologia e o ser. Com o surgimento da quântica, chegamos à conclusão de que aqueles nos serviram "bem no passado, época em que nossos conhecimentos eram mais limitados do que hoje, mas, agora, transformaram-se em nossa armadilha".[5]
Deste modo, batendo de frente com os fundamentos da velha física, respectivamente na ordem em que foram citados acima, a mecânica quântica postula que: a) devido à dualidade onda-partícula de um objeto (este ser, ao mesmo tempo, onda e partícula - Princípio da Complementariedade), é o observador quem escolhe qual das duas possibilidades se revelará em uma dada situação, “a observação faz com que entre em colapso o pacote quântico de ondas e se transforme em uma partícula localizada. Sujeito e objeto estão inextricavelmente misturados” (Princípio da Objetividade Fraca); b) jamais poderemos determinar simultaneamente, com absoluta certeza, a velocidade e posição de um objeto (Princípio da Incerteza), tornando-se “impossível uma descrição rigorosa de causa e efeito do comportamento de um objeto isolado; c) “ondas se espalham por enormes distâncias e, em seguida, instantaneamente, desmoronam quando fazemos medições”, do que se conclui que a influência da medição não viaja localmente (Princípio da Não-Localidade); d) para contradizer o materialismo e o epifenomenalismo, e compreendendo o comportamento de objetos quânticos, “precisamos introduzir a consciência - nossa capacidade de escolher - de acordo com o Princípio da Complementariedade e a idéia da mistura sujeito-objeto”.[6]
Não obstante, se a ciência evoluía de maneira estrondosa, recuperando o antigo ideal de transparência e racionalidade ao avançar contra as tormentas da obscuridade subjetiva de concepções cépticas em relação ao conhecimento, evoluíam de igual forma a industrialização e os avanços tecnológicos, fruto direto do mundo máquina de Descartes, que influenciava, ainda, o macrocosmos em torno de suas idéias. O modernismo dava as cartas e as conseqüências estavam longe de mostrar suas garras. Com a burocratização positivista da nova sociedade industrial, elencada por Comte, Spencer e Durkheim, a disciplina passou a ditar as regras, controlando os homens através de sua vigilância hierárquica e sanções normatizadoras, tornando a labuta diária do indivíduo mero escopo para fins de avaliação constantemente a cerceá-lo, como deixou patente Foucault.
De fato, "a modernidade não apenas conseguiu concretizar os ideais das Luzes que objetivava alcançar, mas também, ao invés de avalizar um trabalho de real libertação, deu lugar a um empreendimento de verdadeira subjugação, burocrática e disciplinar, exercendo-se igualmente sobre os corpos e os espíritos"[7]. O quadro durou relativamente pouco, pois da liberdade moderna o ser social fez sua morada, rompendo vínculos com tradições do passado e assumindo "uma autonomia real em relação às grandes estruturas de sentido". Os mecanismos de controle, então, maquiaram-se, tomando ares de comunicação, ao invés de imposição. Na medida que o indivíduo se entregava ao hedonismo individualista, abandonando as grandes ideologias de massa, o capitalismo aumentava seu poder de abarcamento, qual um rolo compressor sobre os continentes a planificar os ambientes e dar-lhes um só rosto.
Segundo Gilles Lipovetsky, "eleva-se uma segunda modernidade, desregulamentadora e globalizada, sem contrários, absolutamente moderna, alicerçando-se essencialmente em três axiomas constitutivos da própria modernidade anterior: o mercado, a eficiência técnica, o indivíduo. Tínhamos uma modernidade limitada; agora, é chegado o tempo da modernidade consumada"[8], o que o próprio denominou hipermodernidade, "o tempo do desencanto com a própria pós-modernidade, da desmistificação da vida no presente, confrontada que está com a escalada das inseguranças"[9] com relação ao futuro. Apesar da liberdade conquistada, possibilitando um desprendimento de quaisquer traços de vinculação com uma entidade tal, onde o indivíduo tudo pode e tem, a mesma mão que dá, cobra em dobro, exigindo um indivíduo cada vez mais especializado e capacitado para operar nas engrenagens da máquina cartesiana capitalista. Acaba que o sujeito não sabe o que fazer com a tal liberdade, vive numa ilusão sem referencial, um real desprovido de origem e de realidade. Outro filósofo francês, Jean Baudrillard, já havia atentado para o fato:

"... sabe-se que o social pode dissolver-se na reacção de pânico, reacção de cadeia incontrolável. Mas pode dissolver-se também na reação inversa, reacção em cadeia de inércia, cada micro-universo saturado, auto-regulado, informatizado, isolado na sua pilotagem automática.
(...)
Os fenômenos de inércia aceleram-se (se assim nos podemos exprimir). As formas paradas proliferam, e o crescimento imobiliza-se na excrescência. Esse é também o segredo da hipertelia, do que vai mais longe que o seu próprio fim. Seria o nosso modo próprio de destruição das finalidades: ir mais longe, demasiado longe no mesmo sentido - destruição do sentido por simulação, hipersimulação, hepertelia. Negar o seu próprio fim por hiperfinalidade (...) Vingança da excrescência sobre o crescimento, vingança da velocidade na inércia".[10]

Segue nesta mesma linha de raciocínio o economista português Boaventura de Souza Santos, ao discorrer sobre os resultados nos tempos contemporâneos do legado deixado pela revolução científica do século XVI, em seu "Discurso Sobre as Ciências":

"... estamos de novo perplexos, perdendo a confiança epistemológica; instalou-se em nós uma sensação de perda irreparável tanto mais estranha quanto não sabemos ao certo o que estamos em vias de perder; admitimos mesmo, noutros momentos, que essa sensação de perda seja apenas a cortina de medo atrás da qual se escondem as novas abundâncias da nossa vida individual e coletiva. Mas mesmo aí volta a perplexidade de não sabermos o que abundará em nós nessa abundância".[11]


1.4. Transdisciplinariedade em Busca de uma Nova Epistemologia
Mais adiante, Boaventura retoma a questão dos novos paradigmas quânticos, alertando para a necessidade de um movimento de vocação transdisciplinar que viesse a tratar as ciências naturais e as ciências sociais como iguais, com o fim de "revalorizar os estudos humanísticos", vez que "coloca a pessoa, enquanto autor e sujeito do mundo, no centro do conhecimento, mas, ao contrário das humanidades tradicionais, coloca o que hoje designamos por natureza no centro da pessoa. Não há natureza humana porque toda a natureza é humana"[12]. Cita, então, nomes que já seguem por este caminho, quais Haken e sua sinergética, Eigen e sua teoria da origem da vida e o conceito de hiperciclo, Maturana e Varela, pensadores do conceito de autopoiesis, Thom e a teoria das catástrofes, a teoria de evolução de Jantsch, a ordem implicada de David Bohm, Geoffrey Chew e a teoria da matriz-S, subjacente à filosofia do bootstrap.
O físico Fritjof Capra já havia tratado da chamada filosofia bootscrap, ou seja, "a idéia de que não se pode reduzir a natureza a entidades fundamentais, semelhantes a blocos de construção fundamentais da matéria, devendo antes ser entendida por inteiro através da auto-consistência. Toda física deve decorrer apenas do requisito de que seus componentes sejam compatíveis uns com os outros e consigo mesmos"[13]. Como se pode observar, é o oposto da desconstrução cartesiana, que defendia justamente a fragmentação do todo em partes, podendo-se concluir daí a superação do pensamento dualista por uma abordagem holística das ciências baseado nos novos conceitos de espaço, de tempo e de matéria da física quântica.
Schelling também acreditava que o objetivo fundamental das ciências fosse a interpretação da natureza como um todo unificado, sendo a natureza, portanto, uma infinita auto-atividade jamais exaurida. Todo o processo da realidade se cumpriria segundo um sistema dialético de oposições que, depois de sintetizadas, engendrariam novas contradições e assim sucessivamente.
Portanto, depreende-se desse contexto duas linguagens aparentemente desconexas, vez que, ao tempo em que filósofos como Baudrillard e Lipovetsky seguem por trilhas de ladrilhos sociológicos em seu modo de compendiar a realidade, os últimos vão por um caminho de cunho holístico, embasados na filosofia quântica, em uma busca epistemológica conjunta propriamente dita. No entanto, se os meios confundem olhares fugidios, com certa dificuldade chegar-se-á a tal resultado se bem interpretados os fins. Ambas as correntes concordam ao apontarem o declínio de um modelo que já extrapola seus limites. Se uma se abstém de maiores elucidações quanto aos rumos a se tomar, fincando sua análise da sociedade em solo empírico e demonstrando as conseqüências da continuidade do sistema vigente, a outra, ao contrário, atém-se nas possibilidades de construção de um novo mundo que faça esvair a angústia da irracionalidade que nos consome. Falta, assim, o diálogo entre as partes, colocar-se em prática uma legítima investigação dialética envolvendo não somente os sujeitos expostos, mas as ciências naturais e sociais como um todo, que possa, através da analogia e da justaposição de conceitos, chegar a um desfecho para o subjetivismo dominante de nossa era.


2. Objetivos e Hipóteses de Trabalho

A sociedade atravessa, neste início de milênio, uma fase na qual o mundo foi dividido em duas esferas que insistem em permanecer de costas uma para a outra. De um lado, o ceticismo subjetivo dos que, limitados a sua visão pragmática da realidade, apontam os problemas do materialismo capitalista vigente, muito embora não vislubrem as soluções para reverter-se a situação, renunciando, inclusive, a uma ponderação de valores. Do outro, o encantamento muitas vezes desvairado dos que, ante as novas descobertas científicas, prometem uma nova era, sem, no entanto, refletir mais profundamente a respeito dos sintomas apresentados pelo sistema vigente, apesar de demonstrarem de forma pormenorizada suas causas.
Uma coisa, porém, é certa. Seja no mundo hipermoderno lipovetskyano ou no mundo revolucionário de Capra, o que se vê são indivíduos desnorteados em meio às tantas possibilidades oferecidas pelas megalópoles, condicionados que estão em seu modo de conhecer a vida e agir na sociedade. Ao tempo que têm toda uma gama de oportunidades proporcionadas pelos avanços tecnológicos, não encontram os meios adequados para deles desfrutarem. Estão perdidos no "deserto do real", fazendo de si próprios desertos ambulantes. Sem saber o que produzir a partir da liberdade desprovida de vínculos que adquiriram do modernismo calcado em um plano dualista cartesiano, sentam-se na calçada e esperam o fim do dia, repousam na inércia do não ser.

"A história do mundo e do pensamento ocidentais foi comandada por um paradigma de disjunção, de separação. Separou-se o espírito da matéria, a filosofia da ciência; separou-se o conhecimento particular que vem da literatura e da música, do conhecimento que vem da pesquisa científica. Separaram-se as disciplinas, as ciências, as técnicas. Separou-se o sujeito do conhecimento do objeto do conhecimento".[14]


Assim sendo, deparamo-nos com a urgente necessidade de uma convergência dos diferentes modos de pensar, para que se torne possível, através de uma ação conjunta de estudiosos de áreas diversas como a medicina, psicologia, economia, física, direito, entre outras, uma retomada aos caminhos que levam à sabedoria, a um novo método de conhecimento.
O presente trabalho, portanto, desenvolver-se-á no intuito de estabelecer os vínculos sobre os quais Morin lamenta a falta, na hipótese de que, caso esta separação seja revertida, há de se encontrar uma via através da qual um novo conhecimento poderá ser vislumbrado. Os paradigmas quânticos parecem ser a única solução para a crise epistemológica pela qual a sociedade hipermoderna passa. É o que tentarei demonstrar. Para tanto, utilizar-me-ei, no que diz respeito à metodologia, de pesquisa bibliográfica, investigação empírica e confrontação de conceitos.
Desta feita, o presente trabalho tem como objetivos:
a) Apresentar um histórico dos estudos e pensamentos sobre a epistemologia através dos séculos, confrontando os diversos autores de modo que se torne claro o caminho seguido pela filosofia na busca do conhecimento em si;
b) Analisar os pensamentos que dizem respeito à era moderna, com base no conhecimento científico produzido nos últimos cento e cinqüenta anos, para que se possa, através da analogia e da justaposição, chegar a uma conclusão do que se fazer para reverter o quadro acima exposto, ou, ao menos, auxiliar futuros estudos referentes ao tema.
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[1] . Olavo de Carvalho, "Comentários suplementares", em Como vencer um debate sem precisar ter razão, Rio de Janeiro, Topbooks, 1997, p. 237-238.
[2] Ibid., p. 235-237.
[3] Ibid., p. 68.
[4] Amit Goswami, O Universo Autoconsciente, Rio de Janeiro, Ed. Rosa dos Tempos, 2001, p. 67.
[5] Ibid., p. 70.
[6] Ibid.
[7] Sébastien Charles, “O individualismo paradoxal: introdução ao pensamento de Gilles Lipovetsky”, em Os Tempos Hipermodernos, São Paulo, Barcarolla, 2004, p. 16.
[8] Gilles Lipovetsky, Os Tempos Hipermodernos, São Paulo, Barcarolla, 2004, p. 54.
[9] Ibid., p. 64.
[10] Jean Baudrillard, Simulacros e simulação, Lisboa, Relógio d´Água, 1991. p. 118;198.
[11] Boaventura de Sousa Santos, Um discurso sobre as ciências, Porto, Edições Afrontamento, 1996, p. 8.
[12] Ibid., p. 44.
[13] Fritjof Capra, Além do ego, São Paulo, Editora Cultrix, 1995, p.76.
[14] Edgar Morin, O pensar complexo, São Paulo, Garamond, 1999, p. 21.

3. Bibliografia

BAUDRILLARD, Jean. Simulacros e simulação. Lisboa: Relógio d´Água, 1991.
BOCHENSKI, Innocentius Marie. A filosofia contemporânea ocidental. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1975.
CAPRA, Fritjof. O ponto de mutação. 24ª ed. São Paulo: Editora Cultrix, 2003.
CAPRA, Fritjof. O tao da física. 20ª ed. São Paulo: Editora Cultrix, 2000.
CHAUÍ, Marilena de Souza. Convite à filosofia. 13ª ed. São Paulo: Editora Ática, 2003.
GOSWAMI, Amit. O universo autoconsciente. 4ª ed. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2001.
LIPOVETSKY, Gilles. A era do vazio. Lisboa: Relógio d´Água, 1990.
LIPOVETSKY, Gilles. Os tempos hipermodernos. São Paulo: Editora Barcarolla, 2004.
MORIN, Edgar. O pensar complexo. 3ª ed. São Paulo: Garamond, 1999.
SANTOS, Boaventura de Sousa. Um discurso sobre as ciências. 8ª ed. Porto: Edições Afrontamento, 1996.
SCHELLING, Friedrich Wilhelm Joseph von. Obras escolhidas. São Paulo: Abril Cultural, 1979. (Os Pensadores).
SHOPENHAUER, Arthur. Como vencer um debate sem precisar ter razão: em 38 estratagemas: (dialética erística). Introdução, notas e comentários por Olavo de Carvalho. Rio de Janeiro: Top Books, 2003.
WALSH, Roger. Além do ego. 2ª ed. São Paulo: Editora Cultrix, 1995.





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